sexta-feira, 21 de novembro de 2014

PENSAMENTO DA HORA:


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"Humanidade, tanta luta, tanto sofrer, tanto aprender... Utilização de materiais diversos, transformação de madeira em lanças. Capacidade de atear fogo, manipulá-lo, a Arte, a escrita, a matemática, os calendários, o Estado, as instituições, as grandes construções, os sistemas de crenças, a Filosofia, a Ciência, as viagens espaciais... E agora, em nosso tempo, tanto conhecimento e tecnologia adquirido, construído em milênios... Bilhões de pessoas utilizam (a internet) para ficar vendo videozinhos de pessoas dançando idiotamente, animaizinhos em situações cotidianas, celebridades dando peidos ou atravessando a rua, notícias irrelevantes e idiotizantes... Tanto saber e tanta idiotice e alienação andando juntos... Ó tempo pós moderno, complexa época de contrastes complexos..."


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Um Projeto Abandonado: morreu! Sei lá ninguém iria ler esta merda mesmo...

 Valentim













AS PODEROSAS LETRAS DA ANTIGUIDADE












Primeiramente, uma reflexão sobre o título. E, Idéias para outros possíveis títulos do livro:
1. Pensamentos escritos na História
2. Pensamentos, frases, aforismos, proposições, sentenças, provérbios e...
3. “Bíblia” de Citações...
4. Um livro! Vários autores! Uma tempestade de ideias!
5. Orgasmos criativos!
6. Autores e recortes da História
7. Um livro! Textos recortados... Pensamentos expostos... Construção de conhecimento...
8. Múltiplos cérebros. Múltiplos tempos. Múltiplos lugares. Múltiplos autores. Múltiplos... Um livro! Você!
9. Criativos Mortais, textos imortais!
10. Eu! Você! Os autores! Os textos! Uma tempestade de idéias...
11. “Mundo” de Letras
12. Palavras inesquecíveis; pensamentos; sentimentos; gritos do saber; reflexões do ser...
13. Tudo é chato, tudo é ruim, tudo é feio, tudo é podre, tudo fede... Excremento! (Pessimismo!).
14. Tudo é agradável, tudo é bom, tudo é belo, tudo tem perfume... Excelente! (Otimismo!).
15. Algumas coisas são chatas outras agradáveis, umas coisas são belas outras feias, umas são fedorentas outras têm perfume... Adubo criativo e literário! (Realismo?).
16. Autores...
17. Autoras...
18. Autores e Autoras...
19. A Escrita, sua relevância para a humanidade!
20. No Princípio tinha que ter outro título, o título não tinha, Eu (ou Você) escrevi o título...
21. Textos e Críticas
22. A História Fala
23. A B C dos Nerds
24. A maneira mais barata de se dizer que: “Sim! Li tais autores!”.
25. Aforismos diversos
26. Idéias
27. Simplesmente: a opinião de muita gente!
28. Vozes no tempo!
29. Letras no tempo!
30. Autores que influenciaram a História (ou Mundo, ou a Humanidade...)
31. Assim escreve a Humanidade (aliás, só a humanidade, poucos humanos, é claro!).
32. Escrever é Poder!
33. De Gilgamesh até Agostinho?
34. Escrita... A Filha da Arte...
35. Retratos literários no tempo!
36...


Apresentação

Ao terminar a lista anterior, considerando a subjetividade de cada pessoa que a ler, sua cultura, suas crenças e modo de ver a realidade. É impossíveis precisar a quantidade de idéias, pensamentos, sensações, emoções, suas interações com o texto em virtude de sua construção sócio cultural. Ou seja, tudo que um ser humano é capaz de idealizar ou sentir, refletir e analisar. Só em ler palavras como “Bíblia”, “orgasmo”, “tempestade”, as variações nas reações imaginativas, psicológicas e de cunho moral (entre outras), tendem a ser significativas, relevantes e numericamente imensuráveis.
Ampliando essas considerações no tempo ou na História: como reagiria mesmo que intelectualmente, uma pessoa da Grécia antiga ao ler um texto produzido na China no século V a.C? E na contemporaneidade: como as pessoas reagem sobre textos e imagens produzidas em países diferentes? Concordam? Não Concordam? Protestam? Realizam manifestações de repúdio? Juram de morte? E assim por diante...
Esse trabalho (livro), tem duas propostas principais: a primeira é direta e didaticamente reunir vários “recortes”, de dezenas de autores que viveram na antiguidade e em lugares diferentes. Antes de cada conjunto de recortes ser citado uma pequena apresentação do referido escritor (quando possível porque há textos anônimos), uma sucinta análise de sua sociedade (na antiguidade e também na contemporaneidade) será apresentada.
Outra proposta é o desafio de contextualizar a invenção da escrita: época, lugares, grupos humanos que a desenvolveram, diferenças de método e construção, influências, etc. A relevância desta invenção e sua ligação com o poder centralizado e teocrático dos primeiros Estados organizados. A total ligação da escrita, das invenções, das complexas e variadas divisões de trabalhos nas sociedades...
É importantíssimos termos em mente o lugar, a época, o grupo humano onde os poetas e as poetizas, filósofos (as), religiosos (as), políticos (as), etc. produziram seus textos. Que ideologias tinham? Para quem eles ou elas escreveram? Quem pagou? Seu modo de produção? Como pensava sua sociedade em sua época sobre determinados assuntos? Suas crenças...
Para compreender como uma sociedade ou uma pessoa realiza determinadas escolhas, obras, atitudes, ações das mais variadas, é necessário ter acesso (lógico que em parte) a sua mentalidade. Não é possível construir conhecimento histórico sem se ter o mínimo de informações sobre as visões de mundo, o imaginário, as ideologias e o conjunto de idéias de uma determinada sociedade.
Quanto à escolha dos “recortes” dos textos: não foram selecionados de maneira aleatória. Também, os escritos mais conhecidos de uma obra algumas vezes foram deixados de lado em diferentes citações. O foco em cada escrito foi: contradição, proposição, síntese de pensamento (se possível), peculiaridade, o protesto (por parte do escritor), a representação de sua sociedade e cultura, entre outras.
Este trabalho foi construído no sentido de reunir vários textos importantes e polêmicos, históricos, religiosos, filosóficos, de relevância e intensa influência tanto em sua época e sociedade (na antiguidade) como em nosso tempo. Sendo uma importante fonte de citações e bibliografias, um “manual” de pensamentos, aforismos, frases, máximas etc.
Não foram colocados cronologicamente, embora uma tentativa de alinhar os textos no tempo tenha sido feita. Pois, sabe-se que é impreciso cientificamente estipular uma data única sobre obras antigas que são compilações, de autorias diferentes, anônima ou desconhecida e mitológica. Sendo conjuntos de livros, construídos ao longo de séculos e milênios. Iniciando na antiguidade mesopotâmica e “caminhando” até “os portais da Idade Média”, não somente num lugar ou nação específica, mas em várias regiões em continentes diferentes. O tamanho dos textos é indiferente, ora temos várias frases, em outros momentos, apenas uma.
Na historiografia tradicional ou positivista, a divisão entre Pré-história e História, isto é, o divisor, o marco principal, é a invenção da escrita, aproximadamente quatro mil a.C. Nas outras divisões das referidas Idades (Média, Moderna e Contemporânea) é utilizado o “fato histórico” de cunho político e militar: queda do Império Romano; queda ou tomada de Constantinopla e Revolução Francesa.
Diferentemente da historiografia com viés (ou proposta) baseado na Filosofia de Augusto Comte pode-se afirmar que: primeiramente, a Pré-história é História! Os seres humanos na “Pré-História” construíram conhecimento, inventaram, migraram, havia produção de Arte, transformaram, tinham visões de mundo e de realidade, se relacionavam (se tudo isso interagindo não for produção histórica?). As formações de grandes e organizados impérios, de sociedades complexas, não teriam ocorrido sem o conhecimento anteriormente desenvolvido na chamada “Pré-História”!
E, a invenção da escrita não ocorreu da noite para o dia, não temos uma data específica e única para o seu desenvolvimento. Além de ser inventada em diferentes regiões por culturas diversas: Sumérios (Mesopotâmia, escrita cuneiforme), no Egito (Hieróglifos), na China (grande número de símbolos), Índia (Sânscrito).
Ou seja, não há uma linearidade na História! Enquanto um grupo de pessoas desenvolvia a escrita outros grupos poderiam desenvolvê-la só que de formas diferentes, e ainda, os grupos humanos (em sua maioria) viviam sem acesso a esse conhecimento, e, mesmo nas sociedades onde existia a escrita, era reservada a um percentual reduzido da população (religiosos, escribas, líderes). Ainda hoje, existem pessoas que não utilizam a escrita em seu cotidiano!
Além disso, não podemos classificar os seres humanos que pintaram as obras rupestres há milênios antes da invenção da escrita de inferiores! Não devemos considerar um povo ágrafo inferior ao que desenvolveu a escrita. É necessário nos despojarmos dos preconceitos e de nossas intolerâncias!
Compreender que se nascêssemos ou vivêssemos naquela determinada época, naquele espaço geográfico, com o seu zeitgeist específico, com sua mentalidade, seu imaginário, não temos como (e é um absurdo acreditar) afirmar que: poderíamos realizar diferentes, ou até, melhores e mais racionais, viver e pensar, agir diferentemente do que essas pessoas de outro tempo agiam. Anacronismo! Esse é o nome do “pecado”.
Continuando o raciocínio sobre a escrita: são inegáveis as mudanças ocorridas nas civilizações depois da sua invenção. A partir da escrita, os calendários, registros, textos políticos e religiosos (quase sempre os dois simultaneamente), os cálculos, as epopeias, os poemas, oráculos, enfim: a produção cultural, intelectual, o conhecimento poderia ser registrado, e mesmo com o seu acesso restrito a elite sacerdotal ou política, a escrita proporcionou para a humanidade um desenvolvimento diferente da forma oral de comunicação e expressão, a escrita era (ou parecia ser) eterna, profunda, deslumbrante, misteriosa, peculiar, divina...
Antes da escrita, (dialeticamente) a humanidade desenvolveu as línguas (que continuam se transformando), as técnicas de produção e manipulação do fogo, os artefatos de pedra, ossos, madeira, o arco e a flecha, as lanças, as esculturas e pinturas rupestres, formas de domínios, exploração e governos, domesticação de animais, a agricultura, as construções, os rituais e Mitos...
 Porém, com o advento da escrita, a informação, o conhecimento, antes transmitido de forma oral e através das construções culturais citadas no parágrafo anterior. Agora, com o advento da escrita, o registro, a produção, a disseminação, o exercício do poder político e religioso, os cálculos matemáticos... Estavam “recortados” diretamente das mentes dos homens e “colocados” na pedra, na madeira, nos metais, nas peles de animais, nos papiros, nas carapaças de tartarugas, pergaminhos, nos tecidos, e (contemporaneamente) no papel, e em telas de computadores...
Os escritores e os leitores (de todas as épocas e lugares) não existiriam se há milênios os seres humanos não desenvolvessem essa forma de comunicação tão especial, multifacetada, brilhantemente orquestrada pelo intelecto humano!
Temos que ir mais longe: o mundo, as sociedades, a maioria das culturas, as religiões, a grande parte das invenções humanas, as tecnologias, tem total ligação e interação com a escrita. A humanidade com o advento da escrita acelerou sua intervenção, no ambiente, nas suas inter-relações, na própria natureza e realidade!

                                                                  Oséias Faustino Valentim


Capitulo 1

As Poderosas Letras da Antiguidade: a relevância da crença

O ser humano é um ser social! É (entre tantos conceitos possíveis): uma construção biológica e genética, também, cultural e coletiva (social). Não existe um homem ou uma mulher (isoladamente), um grupo de pessoas, um conjunto de grupos, que não tenham cultura, que não apresentem uma soma de conhecimentos, costumes, crenças, visões da realidade, imaginários, mentalidades, mitos e ações peculiares. Antes do advento da escrita, a humanidade com sua criatividade e busca de satisfazer suas necessidades, inventou de forma dialética, várias coisas (que foram citadas anteriormente na apresentação).
Uma questão deve ser levantada: como os grupos humanos se afirmaram? Ou seja, como a união (cada vez maior) de pessoas ocorreu? Ao pensarmos nessa questão, uma palavra tem que ser considerada: crença!
O historiador, escritor e professor francês Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889), na sua clássica obra “A Cidade Antiga”, avalia a importância da crença na formação e transformação de uma sociedade. Mesmo que sua obra tenha sido fundamentada na Grécia e Roma antigas, é possível vislumbrar o peso da religiosidade e da religião não só na antiguidade, mas na Pré-história, ou mesmo, em nosso “presente”. De acordo com COULANGES:

Devemos avaliar atentamente a excessiva dificuldade que havia entre as populações primitivas para fundarem sociedades regulares. O vínculo social não é fácil de ser estabelecido entre seres humanos tão diversos, tão livres, tão inconstantes. Para lhes dar regras comuns, para instituir decretos e fazer aceitar a obediência, para obrigar a paixão a ceder a razão, e a razão individual à razão pública, é certamente indispensável que exista algo mais forte que a força material, mais respeitável que o interesse, mais seguro que a teoria filosófica, mais imutável que uma convenção; algo enfim que exista igualmente no fundo de todos os corações e nestes se impondo com autoridade. E isso é a crença. Nada de mais poderoso existe sobre a alma. A crença é a obra do nosso espírito, mas não encontramos neste liberdade para modificá-la a seu gosto. A crença é de nossa criação, mas nós o ignoramos. É humana, e julgamo-la sobrenatural. É efeito do nosso poder, e é mais forte que nós. Está em nós, não nos deixa, e nos fala a cada instante. Se nos manda obedecer, obedecemos; se nos indica deveres, submetemo-nos. O homem pode dominar a natureza, mas está sempre sujeito ao seu próprio pensamento. (COULANGES, 2002, p.143).


“O homem pode dominar a natureza, mas está sempre sujeito ao seu próprio pensamento”. Em nossa época tendemos a afirmar que o ser humano domina em parte (e somente partes dessas partes) a natureza. Atualmente há a ideia de sistema, a humanidade como parte da natureza! Daí a responsabilidade de preservá-la, pois: preservar a natureza é  autopreservação!
Essas afirmações de COULANGES, embora tenham sido feitas no século XIX, nos fornece uma diretriz de estudo e importância da crença. O historiador continua:

Uma antiga crença ordenava ao homem que honrasse o antepassado; o culto do antepassado agrupou a família em volta do altar. Daí a primeira religião, as primeiras orações, a primeira ideia do dever e a primeira moral; daí também a instituição da propriedade, a fixação de ordem de sucessão e, enfim, todo o direito privado e todas as regras de organização doméstica. Depois a crença evoluiu, no que foi seguida pela associação. Na medida em que sentem que tem divindades comuns, os homens vão-se aliando em grupo cada vez mais numerosos. As mesmas regras, criadas e estabelecidas para a família, aplica-se sucessivamente a fratria, à tribo e à cidade. (COULANGES, 2002, p. 143).


Além das crenças: as mentalidades, as condições climáticas e geográficas, grupos rivais, doenças (bactérias, vírus, problemas genéticos em função de relações de incesto), existência de fontes de água (rios, lagos, lagoas, etc.) predadores e capacidade de obtenção de alimentos, todos esses fatores interagindo, com seus níveis de influências variáveis numa população e o trabalho e a criatividade humana, foram relevantes para a formação, perpetuação e transformação das sociedades. Outro elemento importantíssimo é a centralização do poder político, poder este, totalmente ligado à crença, a religião (Estado teocrático).
Assim sendo, a escrita, ou seja, os primeiros textos produzidos pela humanidade têm total ligação com a religião, os mitos e o poder (Estado centralizado e teocrático), a fauna e a flora próxima ao escritor e a sua sociedade, editos e leis, seu modo de vida e visão de mundo, a “contagem” do tempo e suas formas de controle de produção e consumo. A Arte também deve ser considerada como algo relevante nesse processo. Não é exagero considerar a escrita como “filha legítima” da Arte.
Muitas são as influências, as concatenações, inter-relações e interações, mas a crença é absolutamente relevante nesse processo de construção (invenção) da escrita, assim como, suas contínuas transformações e propósitos.
Importante de ser compreendido, quanto à antiguidade dos textos, é que só podemos estudar o legado material, neste caso a “prova” ou o documento para a História tem o “peso” de seu objeto de estudo em si! Um exemplo: se um historiador afirmar que existe determinado pergaminho ou papiro e não existir provar genuínas de tal preciosidade arqueológica, simplesmente estaremos no contexto da falácia, do Mito ou da pseudociência. Atlântida, conhecimento sobre DNA a milhares de anos, unicórnio, etc.
Outro ponto importante: “A Epopeia de Gilgamesh” ou os textos do Hinduísmo, não pode ser colocados como os escritos mais antigos. Nenhum texto que hoje existe (seja papiro, em pedra ou placas de argila) em algum museu ou instituição pode ser confirmado como tal. Pode-se afirmar que: o texto mais antigo que se tem registro (ou que foi encontrado, pesquisado, estudado) é esse ou aquele, mas, colocar e categoricamente afirmar um texto como “o mais antigo da humanidade” é uma imprecisão, é anticientífico!
O texto antigo, não foi uma obra milagrosa, foi o resultado de um processo anterior a si, para ser construído, antes o sistema todo foi elaborado sofrendo modificações ao longo do tempo, aprimoramentos, abreviações, novas formas, etc. Assim sendo, o que existe hoje nas Universidades e Museus é uma pequena parte do legado que a humanidade construiu e produziu no passado.
Na antiguidade foram escritos: a Epopeia de Gilgamesh (Mesopotâmia), os Vedas do Hinduísmo e muitos outros textos hindus, os Livros dos Mortos do Egito Antigo, o I Ching (China), muitos problemas e cálculos matemáticos (em várias regiões), o Código de Hamurabi (Mesopotâmia), A Bíblia (vários autores), Os Analectos de Confúcio (China), A Arte da Guerra (China), A Odisseia de Homero (Grécia Antiga), os textos do Budismo, de Lao Tsé, os estudos dos filósofos gregos (pré-socráticos, Platão, Aristóteles, Epicuro, entre outros). A Lei das Doze Tábuas de Roma, escritos de Sêneca, Agostinho, etc.
O legado amplo e profundamente influente da antiguidade reverbera até hoje! As proposições, os pensamentos, ditados, leis, crenças, mitos antigos, um conjunto de informações e conhecimentos de outros tempos, que atravessou séculos já passados, sendo lidos relidos interpretados, adorados, admirados, negados e até mesmo queimados! Assim, como as gerações anteriores (sempre a minoria) na contemporaneidade “As Poderosas Letras da Antiguidade” devem ser sistematicamente estudadas, devem ser citadas, observadas, perquiridas, para que o conhecimento não só histórico, mas filosófico, científico, religioso seja enriquecido e fomentado. E, nossa mentalidade e capacidade de visão da realidade venham a ser ampliadas ao mergulharmos nas: Poderosas Letras da Antiguidade...



Capitulo 2

Epopeia de Gilgamesh

Milênios antes dos microcomputadores, antes do papel ser inventado pelos chineses, antes da prensa tipográfica de Gutenberg na Alemanha medieval ser construída, os habitantes da Mesopotâmia desenvolveram um tipo de escrita utilizando placas ou tabuletas de argila, com várias incisões feitas por um tipo de espátula ou cunha, desenhavam nas placas de barro, assim criaram a escrita denominada cuneiforme que foi largamente utilizada na antiguidade (não pela maioria das pessoas, mas dos escribas, dos governantes), nessa região, onde hoje é o Iraque.
Milhares de fragmentos dessas preciosidades arqueológicas e históricas foram encontrados.  A Mesopotâmia (em grego: região entre rios) foi ocupada por diferentes sociedades: os sumérios, assírios, babilônicos, acádios, etc. Nessa região, que forma juntamente com o Egito, o chamado “Crescente Fértil” foram encontradas verdadeiras “bibliotecas” construídas com esse sistema de escrita. Dentre tantas obras e escritos temos a Epopeia de Gilgamesh. A Epopeia desse herói e rei somente foi traduzida no século XIX, em 1860 por George Smith. A riqueza do texto é impressionante e não deixa nada a desejar comparada a qualquer importante obra.
Aventuras, duelos, paixão, amizade, atração sexual, sensualidade, seres mitológicos, deuses e seus descontroles emocionais ocasionais, reflexões sobre a morte, a pós-morte... Há várias questões atemporais nessa obra da antiguidade, resgatada somente no século XIX e escrita pelo menos dois mil anos a.C...
Em uma parte do texto temos o nascimento ou criação de Enkidu (o amigo de Gilgamesh e importante personagem tanto nas aventuras quanto nos sofrimentos em função da profunda relação de amizade que os dois desenvolveram). GILGAMESH p. 94-95:
A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidu. Havia nele virtudes do deus da guerra, do próprio Ninurta. Seu corpo era rústico, seus cabelos como os de uma mulher; eles ondulavam como o cabelo de Nisaba, a deusa dos grãos. Ele tinha o corpo coberto por pelos emaranhados, como os de Samuqan, o deus do gado. Ele era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra.
Enkidu comia grama nas colinas junto com as gazelas e rondava os poços de água com os animais da floresta; junto com os rebanhos de animais de caça, ele se alegrava com a água. Mas um dia, no poço, ele se viu frente a frente com um caçador, pois os animais de caça haviam entrado em seu território. Por três dias eles se encontraram frente a frente, e o caçador se intimidou. Voltou para casa com sua caça e permaneceu mudo, paralisado de terror. Seu rosto estava alterado como o de alguém que retorna de uma longa viagem. Com o coração cheio de pasmo, ele falou a seu pai: "Pai, há um homem, diferente de todos os outros, que desce das colinas. Ele é o homem mais forte do mundo, parece um dos imortais do céu. Vagueia pelas colinas com os animais selvagens e come grama; vagueia por tuas terras e desce até os poços d'água. Tenho medo e não ouso dele me aproximar. Ele tapa os buracos que cavo e destrói as armadilhas que preparo para a caça; ele ajuda as feras a escapar e agora elas escorregam por entre meus dedos”.
Gilgamesh é o rei da cidade de Erech (pertencente a uma das mais antigas civilizações da História) é um personagem mitológico, um guerreiro, um herói, um ser de beleza que atrai até o desejo e a paixão de uma deusa, Ishtar.
A escrita cuneiforme utilizada para escrever a Epopeia e também a versão dos mesopotâmicos sobre o dilúvio é dividida em tabuletas. O texto revela uma criatividade literária, a crença politeísta dos mesopotâmicos, sentimentos e emoções dos personagens, descrição detalhista dos eventos e das aventuras. Exemplo: GILGAMESH p. 121-124.
Gilgamesh lavou seus longos cabelos e limpou suas armas; jogou os cabelos para trás dos ombros, tirou as roupas manchadas que vestia e trocou-as por novas. Ele colocou seus mantos reais e os ajustou ao corpo. Ao vestir a coroa, a gloriosa Ishtar elevou seus olhos e divisou a beleza de Gilgamesh. Ela disse: "Vem comigo, Gilgamesh, e sê meu consorte; infunde-me a semente de teu corpo; deixa-me ser tua mulher e serás meu marido. Arrearei para ti uma carruagem com ouro e lápis-lazúli; as rodas serão de ouro, as trompas de cobre; em vez de mulas, terás para puxá-la os poderosos demônios da tempestade. Ao entrares em nossa casa, envolvida na fragrância do cedro, terás a soleira e o trono a beijar-te os pés. Reis, tiranos e príncipes se curvarão à tua presença; eles te trarão tributos das montanhas e das planícies. Tuas ovelhas darão à luz gêmeos e tuas cabras trigêmeos; teus burros de carga serão mais rápidos do que as mulas; nada se igualará a teu gado, e os cavalos de tua carruagem serão conhecidos em terras distantes por sua velocidade”.
Gilgamesh abriu a boca e respondeu à gloriosa Ishtar: “Se vos tomar como esposa, que presentes poderei oferecer em troca”? Que vestes e perfumes poderia te dar? De bom grado dar-vos-ia pão e todo tipo de comida à altura de um deus. Dar-vos-ia de beber um vinho digno de uma rainha. Eu abarrotaria vosso celeiro de cevada; mas fazer de vós minha esposa, isso não. O que seria de mim? Fostes para vossos amantes como um braseiro que arde sem chama no frio, como uma porta que não protege do vento cortante ou da tempestade, uma fortaleza que esmaga sua guarnição, uma jarra que enegrece o ombro de quem a carrega, um odre que escoria e esfola a pele de seu portador, uma rocha que cai do parapeito, um aríete vindo do inimigo, uma sandália que faz tropeçar aquele que a veste. Qual de vossos amantes chegastes alguma vez a amar para sempre?
Ao ouvir esta resposta, Ishtar foi tomada de uma implacável cólera. Ela subiu aos céus e chorou convulsivamente diante de seu pai, Anu, e sua mãe, Anion. E disse: "Pai, Gilgamesh cobriu-me de insultos; ele expôs toda a minha abominável conduta; denunciou minhas infâmias e torpezas”.Anu abriu a boca e disse: "És um pai de deuses? Não discutiste
com Gilgamesh, o rei, e por isso ele denunciou tua abominável conduta, tuas infâmias e torpezas?"
Ishtar abriu a boca e tornou a falar: "Pai, dai-me o Touro do Céu para destruir Gilgamesh. Enchei, eu vos peço, Gilgamesh de arrogância para sua própria destruição; mas, se vos recusardes a me dar o Touro do Céu, destruirei os portões do inferno e despedaçarei seus ferrolhos; haverá confusão entre os seres que estão nas camadas superiores e os que estão nas profundezas da terra. Trarei os mortos para cima, para que se alimentem como os vivos, e a hoste dos mortos será mais numerosa que a dos vivos." Anu disse à poderosa Ishtar: "Se eu fizer o que tu me pedes, haverá sete anos de seca por toda Uruk; o trigo só terá palha e nada de semente. Guardaste uma quantidade suficiente de grãos para as pessoas e capim para o gado?" Ishtar replicou: "Guardei grãos para as pessoas e capim para o gado; há uma quantidade suficiente de grãos e capim para os sete anos de trigo sem semente."

Na décima tabuleta há uma profunda reflexão sobre a morte e a perda de uma pessoa querida, no caso, o amigo de Gilgamesh, Enkidu. Nessa parte do texto o herói entra no palácio de uma deusa, tem um diálogo com ela, seu nome é Siduri, ele lhe demonstra seus sentimentos em relação à morte do amigo e que tinha vivido com ele grandes aventuras: GILGAMESH p. 140-142.
Siduri então disse a ele: "Se és o Gilgamesh que capturou e matou o Touro do Céu, que matou o sentinela da floresta de cedro, que derrubou Humbaba que vivia na floresta e matou os leões no desfiladeiro da montanha, por que tens as faces tão encovadas e o rosto tão abatido? Por que trazes o desespero em teu coração, e por que teu rosto lembra o de alguém que chega de uma longa jornada? Sim, por que tua face está queimada pelo calor e pelo frio, e por que chegas aqui vagando pelos pastos à procura do vento?"
Gilgamesh respondeu-lhe: "E por que meu rosto não haveria de estar encovado e abatido? Trago o desespero em meu coração; meu rosto lembra o de alguém que chega de uma longa jornada e foi queimado pelo calor e pelo frio. Por que não haveria de vagar pelos pastos à procura do vento? Meu amigo, meu irmão mais novo, que caçava o asno selvagem e a pantera das campinas, meu amigo, meu irmão mais novo, que capturou e matou o Touro do Céu e derrubou Humbaba na floresta de cedro, meu amigo, alguém que me era caríssimo e que enfrentou muitos perigos ao meu lado, Enkidu, meu irmão, a quem tanto amava, a morte o alcançou. Chorei por ele durante sete dias e sete noites, até os vermes tomarem-lhe o corpo. Por causa do meu irmão, tenho medo da morte; por causa do meu irmão, vagueio pelas matas e pelos campos e não consigo descansar. Mas agora, oh, jovem que prepara o vinho, já que vi tua face, não permita que eu veja a face da morte a quem tanto temo."
Ela respondeu: "Gilgamesh, onde vais com tanta pressa? Jamais encontrarás a vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem, eles lhe destinaram a morte, mas a vida eles mantiveram em seu próprio poder. Quanto a ti, Gilgamesh, enche tua barriga de iguarias; dia e noite, noite e dia, dança e sê feliz, aproveita e deleita-te. Veste sempre roupas novas, banha-te em água, trata com carinho a criança que te tomar as mãos e faze tua mulher feliz com teu abraço; pois isto também é o destino do homem."
Mas Gilgamesh disse a Siduri, a jovem: "Como posso ficar calado,
como posso descansar, quando Enkidu, a quem amo, tornou-se pó, e quando também por mim a morte e a terra esperam? Vives à beira do oceano e vês o seu interior; dize-me, oh, jovem, como chegar a Ut-napishtim, o filho de Ubara-Tutu. O que preciso saber para chegar até ele? Instruí-me, dize o que tenho de fazer. Atravessarei o Oceano se isto for possível; se não for, vagarei por regiões ainda mais desoladas." A fabricante de vinho lhe disse: "Gilgamesh, não há como atravessar o Oceano; todos os que aqui vieram, desde os dias de outrora, não conseguiram viajar pelo mar. O Sol em sua glória atravessa o Oceano, mas quem além de Shamash jamais logrou tal feito? O lugar é perigoso e a passagem difícil; as águas da morte que por ali correm são profundas. Gilgamesh, como vais atravessar o Oceano? Quando chegares às águas da morte, o que farás? Mas, Gilgamesh, no meio da floresta encontrarás Urshanabi, o barqueiro de Ut-napishtim; com ele estão os objetos sagrados, os objetos de pedra. Ele está talhando a proa do barco em forma de serpente. Observa-o bem. Se for possível, talvez consigas atravessar as águas do Oceano com ele; se não, terás de voltar.”“.

         Nessa criativa obra da antiguidade, datada de mais de dois milênios a.C. as aventuras de Gilgamesh, seus sentimentos, sofrimentos, batalhas, diálogos, são colocados e narrados de forma a fazer o leitor interagir com os sentimentos do herói, pois (no caso desse texto) os escritos cuneiformes trabalham os sentimentos comuns a qualquer ser humano. Brilhantemente, o escritor ou os escritores relatou nesses textos muito da vivência e da experiência humana, experiência no sentido do pensar na morte, no amor, no desejo, na amizade, na imortalidade, na coragem e no medo, etc.
         Outro ponto importante é a versão encontrada em escrita cuneiforme sobre o dilúvio. Gilgamesh profundamente comovido e perturbado com a morte de seu amigo busca respostas, ele procura seu ancestral Utanapishtim, nada menos que o “Noé” dessa saga. GILGAMESH p. 147.

Oh, pai Utnapishtim, tu que te juntas-te à assembléia dos deuses, desejo fazer-te algumas perguntas sobre os vivos e os mortos: como encontrar a vida que estou buscando?"
Utnapishtim disse: "Não existe permanência. Acaso construímos uma casa para que fique de pé para sempre, ou selamos um contrato
para que valha por toda a eternidade? Acaso os irmãos que dividem uma herança esperam mantê-la eternamente, ou o período de cheia do rio dura para sempre? Somente a ninfa da libélula despe-se da larva e vê o sol em toda a sua glória. Desde os dias antigos, não existe permanência. Como são parecidos os adormecidos e os mortos, eles são como um retrato da morte. O que existe entre o servo e o senhor depois de ambos terem cumprido seus destinos? Quando os Anunnaki, os juízes do mundo inferior, se reúnem com Mammetum, a mãe dos destinos, juntos eles decidem a sorte dos homens. Eles distribuem a vida e a morte, mas o dia da morte eles não revelam."
Gilgamesh então disse a Utnapishtim, o Longínquo: "Olho para ti, Utnapishtim, e vejo que és igual a mim; não há nada estranho em tuas feições. Pensei que fosse encontrar um herói preparado para a batalha, mas aqui estás, confortavelmente refestelado. Conta-me a verdade, como foi que vieste a te juntar aos deuses e ganhaste a vida eterna?" Utnapishtim disse a Gilgamesh: "Eu te revelarei um mistério; eu te contarei um segredo dos deuses."

         A vida eterna que Utnapishtim conquistou, foi à recompensa de ter construído um barco diferente, uma arca, ter enfrentado um dilúvio e, apesar de tantas dificuldades, conseguir cumprir seu destino: GILGAMESH p. 149-155.

"Conheces a cidade de Shurrupak, que fica às margens do Eufrates? A cidade envelheceu, assim como os deuses que lá moravam. Havia Anu, o senhor do firmamento e pai da cidade; o guerreiro Enhl, seu conselheiro; Ninurta, o ajudante; e Ennugi, que vigiava os canais. Entre eles também se encontrava Ea. Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea,
por causa de sua promessa, me avisou num sonho. Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deveras construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas.' "Quando compreendi, eu disse ao meu senhor: 'Sereis testemunha de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?' Ea então abriu a boca e falou a mim, seu servo: 'Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu senhor Ea. Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos trará uma torrente de trigo.'
"Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto necessário. No quinto dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área e cada lado do convés media cento e vinte côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais seis conveses, num total de sete, e dividi cada um em nove compartimentos, colocando tabiques entre eles. Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma
ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio, vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete como os que são preparados à época dos festejos do ano-novo; eu mesmo ungi minha cabeça. No sétimo dia, o barco ficou pronto.
"Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de dois terços de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo — os domesticados e os selvagens — e todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por Shamash já havia se esgotado; e ele disse: 'Esta noite, quando o cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e te fecha lá dentro.' Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro, deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados.
"Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o senhor da tempestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os sete juízes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam
contra os muros e ficaram encolhidos como covardes. Foi então que Ishtar, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse em trabalho de parto: 'Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó, pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos, mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou? Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.' Os grandes deuses do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.
"Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu. No primeiro dia ele ficou preso; no segundo dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um terceiro e um quarto dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um quinto e um sexto dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do sétimo dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro
e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então, Ishtar também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu, feito por Anu para lhe agradar. 'Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.'
"Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. 'Alguns destes mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.' Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse ao guerreiro Enlil: 'E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea? Somente Ea conhece todas as coisas.' Então Ea abriu a boca e falou para o guerreiro Enlil: 'Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste tão insensatamente provocar este dilúvio?
Inflige ao pecador o seu pecado,
Inflige ao transgressor a sua transgressão,
Pune-o levemente quando ele escapar,
Não exageres no castigo ou ele sucumbirá;
Antes um leão houvesse devastado a raça humana
Em vez do dilúvio,
Antes um lobo houvesse devastado a raça humana
Em vez do dilúvio,
Antes a fome houvesse assolado o mundo
Em vez do dilúvio.
Antes a peste houvesse assolado o mundo
Em vez do dilúvio.
Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele
através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre o que fazer com ele.'
"Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: 'No passado, Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão longe, na foz dos rios.' Foi assim que os deuses me pegaram e me colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios”.

         Não há como afirmar a ligação entre a narração da Bíblia e o texto do dilúvio dos povos da mesopotâmia, polêmica é a afirmação de que um seria a cópia do outro, com algumas modificações. O que se sabe é que a crença do dilúvio e destruição da humanidade é comum a ambas as culturas, e, em outras culturas também. Apesar do texto de Utnapishtim (“Noé” da epopeia mesopotâmia) ser mais antigo que a Bíblia e que, segundo a própria Bíblia, o patriarca Abraão ainda Abrão saiu de Ur dos Caldeus (uma das cidades mais antigas existentes na própria Mesopotâmia) não se pode colocar um texto como simples cópia de outro!
         Mas, entende-se que uma crença pode ser comum a vários povos, com suas variações regionais, suas formas de contar e divulgar suas crenças. No caso do dilúvio, tanto dos hebreus (Bíblia) como da mesopotâmia (Utnapishtim) pertencem à mesma região (Crescente Fértil, oriente médio), porém de povos diferentes, considerando que os hebreus são “descendentes” do povo de Ur conforme a própria Tora cita.


Capitulo 3

Os escritos do Hinduísmo

         Não é possível precisar exatamente um início, ou seja, uma data específica para a construção dos textos do Hinduísmo. Ou melhor, para a própria sociedade védica ou dos grupos humanos que viviam na região onde hoje é a Índia e o Paquistão. O que se pode afirmar é que juntamente com o Egito, a Mesopotâmia, na América (os Maias) e a China, a Índia é um dos “berços” da civilização.
         Os textos sagrados do Hinduísmo são muito variados, diversificados, com vários propósitos e múltiplos exemplos de hinos e cânticos, repetições de palavras de louvor ou pedidos, reflexões sobre a origem do cosmo, encantamentos, maneiras de se livrar do mau, citações de vários problemas do cotidiano, oferendas, conselhos, receitas e tratamentos de saúde, nome de divindades (em grande número)...  
         O Sânscrito Védico é uma antiga forma de Sânscrito, os Vedas, que são os textos sagrados mais antigos (conhecidos) foram escritos nessa língua. O politeísmo é um ponto relevante nesses textos, bem como, a divisão das divindades de acordo com o tipo de pedido ou encantamento que está sendo realizado. Há divindades para as mais variadas finalidades e explicações religiosas e mitológicas.
         Quanto à influência histórica da Índia: na matemática, como os números - símbolos: 1 2 3... A invenção do Zero! As famosas e lucrativas especiarias desejadas pelos europeus nas grandes navegações, a não violência de Mohandas Karamchand Gandhi, ou Mahatma Gandhi, que em sânscrito significa “A grande alma”, o pensamento, os mitos, a Ioga (ou Yoga) as religiões (Hinduísmo, Budismo e outras) as castas (regime religioso de divisão da sociedade), grandes e requintadas construções como o Taj Mahal, todas essas citações e elementos da Histórica, estão totalmente vinculados à escrita.
         A utilização do algodão tingido, especialidade em trabalho com ferro e busca do desenvolvimento do aço. Sua numerosa população (segundo país mais populoso do mundo), seus mitos de criação e destruição (de ciclo do cosmo), etc.
         Incrivelmente, o “peso” da escrita parece que nos passa despercebidos, ou ainda, desprezadamente. A escrita nos parece muitas vezes natural e simplista. Mas, fica até difícil (impossível) construir um exercício de imaginação de como seria a Índia (ou qualquer outra nação ou grupo humano) se não fosse à invenção e a utilização da escrita. A centralização do poder, o controle e a administração do Estado, as construções, a matemática, a mitologia, a religião... Todos esses complexos arranjos ou teias de inter-relações sócio cultural em movimento na História têm ligação com a escrita!
         O Rigveda (ou Rig Veda) é considerado o mais antigo dos Vedas, ou seja, é uma das obras da literatura da Índia mais influente. É a base para as outras compilações védicas e também exerce grande influência no pensamento oriental. Um importante exemplo para ser citado é a parte do texto que o professor, astrônomo, pesquisador, físico e escritor brasileiro Marcelo Gleiser, no seu livro intitulado “A Dança do Universo” cita da literatura indiana, nesse trabalho o autor trabalha e explica de forma didática, a partir dos mitos sobre as origens do universo, Gleiser, chega até as proposições da ciência moderna em relação à origem do cosmo. De acordo com GLEISER p. 34-35:

Aqui está um claro exemplo achado no hinduísmo, no Rigveda x, escrito por volta do século XII a. C:
Antes de o Ser ou o Não-Ser existirem
Ou a atmosfera, ou o firmamento, ou o que esta ainda além,
O que fazia parte do quê? Onde? Sob a proteção de quem?
O que era a água, as profundezas, o insondável?
Nem morte ou imortalidade existiam,
Nenhum sinal da noite ou do dia
Apenas o Um respirava, sem ar, sustentado por sua própria energia.
Nada mais existia então.
No princípio a escuridão existia submersa em escuridão Tudo isso era apenas água latente, em estado embrionário. Quem quer que ele seja, o Um, ao passar a existir, Escondido no Vazio, Foi gerado pelo poder do calor. No princípio esse Um evoluiu.
Transformando-se em desejo, a primeira semente da mente. Aqueles que são sábios, ao buscar seus corações, Encontraram o Ser no Não-Ser. Existia o abaixo? Existia o acima?
[...]
Quem realmente sabe? Quem pode declará-lo? E assim nasceu, e se transformou em uma emanação. Dessa emanação os deuses, mais tarde, apareceram. Quem sabe de onde tudo surgiu? [...]
Apenas aquele que preside no mais elevado dos céus sabe. Apenas ele sabe, ou talvez nem ele saiba!

         Os escritos dos Vedas são milenares. No exemplo citado anteriormente pode-se verificar a profunda reflexão sobre a criação, a divindade, a busca de respostas, a instigante caminhada do ser humano em perscrutar o transcendente e o insondável. Porém, sobre a reflexão oriental, ou “filosofia oriental” (da Índia principalmente) comparada com a Grega, por exemplo, será comentado posteriormente.
         Outro texto, ou conjunto de textos, importantíssimo e de grande influência não só na Índia, mas em todo oriente (e nos últimos séculos no ocidente) são os escritos do Budismo. Assim como Jesus Cristo e Maomé, Siddharta Gautama, o Buda (o iluminado) não registrou seus pensamentos, ensinamentos e doutrinas. Seus discípulos seguidores compilaram seus ensinamentos ao longo do tempo.
 Pode-se usar a palavra “rompimento” para descrever o advento do Budismo em relação ao Hinduísmo. Nenhuma religião nasce do nada! Ocorrem heranças culturais, rupturas e permanências de mentalidade e visão de mundo.
O maior “rompimento” ou mudança no que se refere à crença foi a total destruição da mentalidade ou religiosidade politeísta. O Hinduísmo tem milhares de deuses, existe uma ligação entre os deuses e os fatos cotidianos os acontecimentos os sofrimentos, o cosmo, etc. Já no Budismo, pode-se falar até em não deidade, e busca de suprimir o sofrimento e até eliminá-lo.
Outro ponto importante é a questão das castas. No Hinduísmo a crença das castas divide a sociedade, promove sua estratificação desde os mais altos cargos até a mendicância e a miséria. Nesse sentido, pode-se chamar Siddharta de um revolucionário, ou melhor, os textos do Budismo. A mudança de uma sociedade com castas e uma sem castas é notadamente considerável.
Siddharta viveu por volta do século V a.C. Qualquer data precisa que se coloque é dificilmente correta, não há dados suficientes para datarmos não só a vida de Buda, mas de Jesus ou Moisés também (como exemplo), é possível se chegar próximo, mas, afirmar com exatidão data de nascimento e morte é impreciso. Também, é necessário saber (cito novamente) que esses personagens importantes não escreveram! Buda e Jesus Cristo! Mas que escreveram (seus seguidores e discípulos) sobre eles e suas doutrinas e ensinamentos.
A seguinte citação é do livro “A Doutrina de Buda” pertence a Fundação para a Promoção do Budismo, tradução de Yehan Numata. P 76 e 77:
Os Votos do Buda Amida:
(a)        “Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, até que todos em meu país tenham a certeza de entrar no reino de Buda e obter a iluminação.
(b)       Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, enquanto minha luz salvadora não brilhar em todo o mundo.
(c)        Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, a não ser que minha vida perdure através dos séculos e salve inumeráveis homens.
(d)       Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, enquanto todos os Budas nos dez quadrantes não se unirem ao louvar o meu nome.
(e)        Embora alcance o estado de Buda, não me sentirei realizado, até que os homens, com fé sincera, consigam, repetindo dez vezes o meu nome, renascer em meu reino.
(f)         Embora alcance o estado de Buda, não me sentirei realizado, até que os homens em toda parte, decidam-se em atingir a Iluminação, pratiquem as boas virtudes, desejem sinceramente nascer em meu reino; se assim acontecer, em companhia de Bodhisattvas, eu os saudarei no momento de suas mortes e os levarei para a minha Terra Pura.
(g)        Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, até que os homens, ouvindo o meu nome, pensem em meu reino e nele desejem nascer, plantem com sinceridade as sementes da virtude, e sejam capazes de cumprir todos os desejos de seus corações.
(h)        Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, até que todos aqueles que nascem na minha Terra Pura tenham a certeza de alcançar o estado de um Buda, a fim de que possam conduzir muitos outros à Iluminação e à pratica da grande compaixão.
(i)          Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, até que os homens do mundo inteiro sejam influenciados por minha mente de amável compaixão, que lhes purificará as mentes e os corpos e os conduzirá acima das coisas mundanas.
(j)          Embora alcance o estado de Buda, não me considerarei realizado, até que os homens de toda parte, ouvindo meu nome, tenham idéias corretas a respeito da vida e da morte, tenham a perfeita sabedoria que lhes permitirá manter as mentes puras e tranquilas, entre a cobiça e o sofrimento do mundo.
Assim, tenho feito meus votos; não possa eu alcançar o estado de um Buda, enquanto eles não forem cumpridos. Possa eu tornar-me a fonte da Luz infinita, libertando e irradiando os tesouros de minha sabedoria e virtude, iluminando todas as terras e emancipando todos os homens sofredores.”“.
         Considerando seus votos, analisando com moderado ceticismo, pode-se pensar que (de acordo com o próprio Buda “não possa eu alcançar o estado de um Buda, enquanto eles não forem cumpridos”), logo: Buda nunca ou ainda não se tornou Buda! As reflexões que os pensamentos budistas trazem a tona, as “respostas”, as declarações, só podem ser contextualizadas e acreditadas no domínio da religião, dos dogmas e da crença! Reencarnação, extinção ou salvação de todo sofrimento, a Terra Pura, etc.
         O Budismo é uma das mais influentes religiões do mundo, nos últimos dois séculos tem se propagado no ocidente. E, em alguns países do oriente, tem sido uma importante força política contra regimes ditatoriais.


  

Capitulo 4

O Código de Hamurabi

         Voltando a Mesopotâmia e a escrita cuneiforme, aproximadamente no século XVIII a.C. Foi compilado um código de leis muito amplo e profundamente influente: O Código de Hamurabi. Foi descoberto no início do século XX, por uma missão liderada por Jacques de Morgan, e traduzido pelo religioso Jean-Vincent Scheil (na França).  
         Assim como os outros escritos, o politeísmo e o dogma da inspiração divina são presentes nessa obra da antiguidade. Também, importante de ser observado é a colocação do monarca como recebedor da lei divina, ou seja, Hamurabi (nesse caso) é tanto o Rei (centralizador do poder de administração e controle) como é uma espécie de sumo sacerdote, o líder religioso que representa a divindade e repassa à nação a forma de viver, os deveres e direitos, as normas do comércio, escravidão, matrimônio, filhos, etc.
         A base dessa compilação de leis é a lei de Talião, ou seja, para a aplicação das penas aos devidos crimes tratados no texto. Muitos outros escritos em pedra, isto é, outros sistemas de conjunto de leis foram produzidos, porém, uma das mais estudadas e conhecidas é a Lei desse Monarca ou código de Hamurabi.
         Pode-se chamar de abrangente o código em função da busca do monarca ou de seu governo de “padronizar” o direito, estabelecer vias de regra, regulamentação e conduta em toda sociedade que por ele era governada. Um bom exemplo é a questão da escravidão e da vida no casamento, no código existem várias leis referentes a esses elementos constitutivos da vida social na Babilônia antiga, além de tratar de crimes e penas sobre: roubo, assassinato, estupro, construções, etc. Algumas das 282 leis:
142. Se uma mulher brigar com seu marido e disser "Você não é compatível comigo", as razões do desagrado dela para com ele devem ser apresentadas. Caso ela não tiver culpa alguma e não houver erro de conduta no seu comportamento, ela deverá ser eximida de qualquer culpa. Se o marido for negligente, a mulher será eximida de qualquer culpa, e o dote desta mulher deverá ser devolvido, podendo ela voltar para casa de seu pai.
143. Se ela não for inocente, mas deixar seu marido e arruinar sua casa, negligenciando seu marido, esta mulher deverá ser jogada na água.
144. Se um homem tomar uma esposa e esta der ao seu marido uma criada, e esta criada tiver filhos dele, mas este homem desejar tomar outra esposa, isto não deverá ser permitido, e que ele não possa tomar uma segunda esposa.
145. Se um homem tomar uma esposa e esta não lhe der filhos, e a esposa não quiser que o marido tenha outra esposa, se ele trouxer uma segunda esposa para a casa, a segunda esposa não deve ter o mesmo nível de igualdade do que a primeira.
146. Se um homem tomar uma esposa e ela der a este homem uma criada que tiver filhos deste homem, então a criada assume posição de igualdade com a esposa. Porque a criada deu filhos a seu patrão, ele não pode vendê-la por dinheiro, mas ele pode mantê-la como escrava, entre os criados da casa. 147. Se ela não tiver dado filhos a este homem, então sua patroa poderá vendê-la por dinheiro.
148. Se um homem tomar uma esposa, e ela adoecer, se ele então desejar tomar uma Segunda esposa, ele não deverá abandonar sua primeira esposa que foi atacada por uma doença, devendo mantê-la em casa e sustentá-la na casa que construiu para ela enquanto esta mulher viver.
149. Se esta mulher não desejar permanecer na casa de seu marido, então ele deve compensá-la pelo dote que ela trouxe consigo da casa de seu pai, e então ela poderá ir-se embora.
150. Se um homem der à sua esposa um campo, jardim e casa e um dote, e se após a morte deste homem os filhos nada exigirem, então a mãe pode deixar os bens para os filhos que preferir, não precisando deixar nada para os irmãos do falecido.
151. Se uma mulher que viveu na casa de um homem fizer um acordo com seu marido que nenhum credor pode prendê-la, ela tendo recebido um documento atestando este fato. Se tal homem incorrer em débito, o credor não poderá culpar a mulher por tal fato. Mas se a mulher, antes de entrar na casa deste homem, tenha contraído um débito, seu credor não pode prender o marido por tal fato.
152. Se após a mulher Ter entrado na casa deste homem, ambos contraírem um débito, ambos devem pagar ao mercador.
153. Se a esposa de um homem tiver matado por outro homem a esposa de outrem, os dois deverão ser condenados à morte.
154. Se um homem for culpado de incesto com sua filha, ele deverá ser exilado.
155. Se um homem prometer uma donzela a seu filho e seu filho ter relações com ela, mas o pai também tiver relações com a moça, então o pai deve ser preso e ser atirado na água para se afogar.
156. Se um homem prometer uma donzela a seu filho, sem que seu filho a conheça, e se então ele a deflorar, ele deverá pagar a ela ½ mina em outro, e compensá-la pelo que fez a casa do pai dela. Ela poderá casar com o homem de seu coração.
157. Se alguém for culpado de incesto com sua mãe depois de seu pai, ambos deverão ser queimados.
158. Se alguém for surpreendido por seu pai com a esposa de seu chefe, este alguém deverá ser expulso da casa de sul pai.
159. Se alguém trouxer uma amante para dentro da casa de seu sogro, e, tendo o pago o preço de compra, disser para o sogro " Não quero mais sua filha", o pai da moça deverá ficar com todos os bens que este alguém tenha trazido consigo.
160. Se alguém trouxer uma amante para dentro da casa de seu sogro, e, tendo o pago o preço de compra,
(por sua esposa), e se o pai da moça disser a ele "Eu não te darei minha filha", o homem terá de devolver a moça a seu pai.
161. Se um homem trouxer uma amante para a casa de seu sogro e tiver pago o "preço de compra", se então seu amigo o enganar [com a moça] e seu sogro disser ao jovem esposo "Você não deve se casar com minha filha", a este jovem deve ser dado de volta tudo o que trouxe consigo, sendo que o amigo não poderá se casar com a moça
162. Se um homem casar com uma mulher, e esta lhe der filhos, se esta mulher falecer, então o pai dela não terá direito ao dote desta moça, pois tal dote pertencerão aos filhos dela.
163. Se um homem casar com uma mulher, e esta não lhe der filhos, se esta mulher morrer, e se o preço de compra que ele pagou para seu sogro for pago ao sogro, o marido não terá direito ao dote desta mulher, pois ele pertencerá à casa do pai dela.
...
278. Se alguém comprar um escravo homem ou mulher, e antes de um mês Ter se passado, aparecer a doença de bens, este alguém deverá devolver o escravo ao vendedor, e receber todo dinheiro que pagou por tal escravo.
279. Se alguém comprar um escravo homem ou mulher, e uma terceira parte reclamar da compra, o vendedor deverá responder pelo ocorrido.
280. Se quando num país estrangeiro um homem comprar um escravo homem ou mulher que pertencer a outra pessoa de seu próprio país, quando este retornar ao seu país e o dono reconhecer seus escravos, caso os escravos forem nativos daquele país, este alguém deverá restituir os escravos sem receber nada em troca.
281. Se os escravos forem de outro país, o comprador deverá declarar a quantia de dinheiro paga ao mercador, e manter o escravo ou escrava consigo.
282. Se um escravo disser a seu patrão " Não és meu mestre", e for condenado, seu mestre deve cortar a orelha do escravo.

http://www.angelfire.com/me/babiloniabrasil/hamur.html acesso em: 29/07/2010, às 21h45min h. Fonte: The Eleventh Edition of the Encyclopaedia Britannica, 1910
pelo Rev. Claude Hermann Walter Johns, M.A. Litt.D.

         Esse escrito antigo (e outros de mesmo formato e quantidade) representa uma transição entre o desejo de vingança generalizado (ou lei do mais forte, ausência de leis, etc.), também, sistemas com um número reduzido de leis e normas, para, um conjunto de leis elaboradas e compiladas, em maior número, com uma grande diversidade e complexidade referentes ao Direito, conjunto este, que busca mediar a maior quantidade de situações e casos referentes à sociedade, com as respectivas penas atribuídas. Com o advento de um conjunto de leis, o grupo humano por ele submetido vivia sob o controle de um poder estatal centralizado (e teocrático).
         Ao retornarmos a proposição de COULANGES referente à crença anteriormente citada, é plenamente possível verificar a relevância da crença ou mesmo da religião na formação dos impérios do passado, das sociedades da antiguidade. Com a invenção e o advento da escrita, o controle do Estado se afirmava como fundamental na formação de crescentes sociedades organizadas. O elemento religioso era a fundamentação da vida em sociedade, o ideal de justiça, a explicação para toda norma e conduta. No próprio código verifica-se a divisão da sociedade em grupos distintos conforme a liberdade e escravidão, as profissões (se era um funcionário público, por exemplo) o sexo, os filhos de casamentos diferentes.
         Incestos, pena de morte, assassinatos, roubos, escravidão e diferenças econômicas estão tratadas no código de Hamurabi. Esse texto construído na antiguidade é estudado por estudantes de Direito e História (entre outros) em Universidades do mundo todo. O legado de Hamurabi, de seu governo, de seu grupo humano, transcendeu seu tempo e sua sociedade através da escrita.



Capitulo 5

Os Hieróglifos do Egito

         Hieróglifo é uma palavra formada pela junção de duas palavras da língua grega e significa “escrita sagrada”.  Jean-François Champollion (1790- 1832) foi o tradutor por excelência dos textos do Egito Antigo (na pedra de Roseta) e o fundador da egiptologia. O Egito, sua história, sua religião, suas construções, as citações que existem na Bíblia sobre essa nação, sua influência, enfim: o Egito é destacado por ser muito singular em sua cultura e, também, por construir as grandes pirâmides. Outro exemplo da influência e importância do Egito é a própria origem da palavra Química que vem do egípcio Kimi / Kême.
         Mas, deve-se ter conhecimento que o Egito não surgiu juntamente com as grandes construções ou mesmo com as pirâmides. Essa nação fascinante e religiosa profundamente, que detinha conhecimentos de agricultura, irrigação, matemática, arquitetura... Foi se estabelecendo ao longo do rio Nilo na África, o Egito antigo em todo seu esplendor cultural foi o resultado de um processo histórico milenar.
         Ao longo do grande Nilo, pequenos grupos humanos se fixaram, os Nomos, esses grupos foram crescendo e se desenvolvendo em função da fertilidade que o próprio rio proporciona (logicamente se aproveitando as condições naturais com técnicas apropriadas). O Egito se unifica entre 2800 a 3000 anos a.C. quando o Baixo e o Alto Egito se fundem, ou melhor, são unificados política e administrativamente. O politeísmo e o poder centralizado no Faraó são relevantes na História do Egito, a sociedade egípcia serve ao Faraó, o líder do Egito antigo não é somente um monarca para seu povo, ele é: um deus ou filho dos deuses, um rei, juiz, intocável, líder máximo e absoluto.
         Ao lado do Faraó, sua corte, ou melhor, grupo de sacerdotes, conselheiros, estudiosos da natureza e do ambiente, do tempo e dos astros, os escribas, engenheiros, etc. Como foi citado anteriormente o Egito é conhecido pelas suas pirâmides, também, outro elemento de sua cultura que fascina são as múmias: antigas, assustadoras (na visão ocidental contemporânea), misteriosas detentoras de maldições...
         Bem, novamente a crença e a escrita são elementos relevantes e importantíssimos, tanto nessa cultura milenar (Egito) como nas outras tão antigas quanto.  Sem a crença na imortalidade, na vida no além ou no pós-morte, na divindade representada no seu líder político, ou seja, um poder centralizado, o Egito não teria motivo para construir ou mumificar. Sua matemática, seus textos religiosos, legais, políticos, seus projetos de arquitetura e irrigações, todas essas construções culturais tem ligação com a escrita (e logicamente com a crença)!
         O Egito foi, ao longo da História, no ocidente, muito desmerecido e considerado o “vilão” da antiguidade em função de ter escravizado o povo Hebreu. Deve-se considerar que a escravidão na antiguidade era utilizada tanto nos povos que não eram ou não detinham uma capacidade tecnológica e uma organização social complexa, quanto nas nações com maiores construções, complexidade social, exércitos, etc. Grécia, Roma, Egito, Israel, Babilônia, etc., a escravidão era utilizada amplamente, sendo assim, colocar o Egito como um escravizador cruel é, no mínimo, fruto de desconhecimento e preconceito.
         Na Bíblia, no capitulo 29 do livro de Ezequiel há várias condenações para o Egito e para o próprio Faraó. Até uma sentença profética de que os egípcios iriam ser espalhados pelo mundo durante quarenta anos e logo após essa “diáspora egípcia” eles seriam novamente colocados em seu país. O Egito seria reduzido em comparação a Israel. Também o próprio Nilo iria secar em função do Faraó proclamar que o rio era dele. No texto bíblico, além desse capítulo, existem muitos outros de julgamento contra o Egito.
         É notório que essa profecia de quarenta anos de “diáspora” nunca ocorreu e que o grande Nilo nunca secou totalmente, pelo contrário, é um dos rios mais importantes para a civilização (historicamente) e os egípcios nunca foram espalhados pelo mundo durante quarenta anos retornando depois!
         Porém, todo o imaginário construído a partir dos textos bíblicos são as fundamentações da visão de malignidade da cultura do Egito Antigo. A partir da chegada do Islamismo no Egito, ocorreu uma transformação na vida social e principalmente religiosa dos egípcios. Há atualmente: uma minoria cristã, sendo a maioria seguidora do Islã.
         Dentro da minoria cristã egípcia existe ainda a Igreja Kópta ou Copta. Caso único no mundo de permanência de elementos da cultura ancestral da religião do Egito Antigo.


Capitulo 6

MADE IN CHINA

         O país mais populoso do mundo, o maior produtor de vários tipos de produtos, a nação que conseguiu se unificar a mais de dois milênios, a China da grande muralha, da grande marcha, onde foi inventado o papel, a pólvora, o macarrão, a bússola...
         As dinastias chinesas, as construções, as navegações, o poder centralizado no Imperador o “Filho do Céu”, seus provérbios, escritos, crenças, o urso panda, sua escrita... E, a China moderna: as Olimpíadas, o “Ninho do Pássaro” e o “Cubo dá Água” (estádios), tratamentos com células tronco, a vendedora global, sua porcelana, a dominadora do Tibete... China: um país, uma nação, com uma História riquíssima, com sofrimentos (na Segunda Guerra mundial e na ditadura de Mao, nos grandes desastres naturais que ocorreram em seu território, por exemplo), China da Praça da Paz Celestial, do jovem contra o Tanque de guerra...
         China, do crescimento econômico que causa espanto no mundo... Mandarim, escrita antiga, busca de sabedoria e de mistérios da existência. China!
         Para um ocidental latino ou anglo saxônico, estudar a China é como construir transcender em outra cultura, uma cultura tão rica e complexa (e diferente da sua) que em vários momentos parece que é impossível aprender sua escrita e sua língua. Desde as primeiras palavras desse capitulo, uma tempestade de palavras e conceitos sobre a China foi “sendo colocada” diante do leitor, sim essa foi a intenção, nos colocar (quem escreve inclusive) diante do diferente, e compreender que: mesmo na diferença existem elementos comuns!
         A Centralização do poder no Imperador; a relevância novamente da crença e da escrita, da matemática nas construções, da numerologia, nas tecnologias para a navegação e grandes construções como a Muralha da China... O confucionismo, o budismo (“importado” da Índia), os vários textos antigos da China.
         A Arte da Guerra de Sun Tzu, o antiquíssimo oráculo I Ching, o Tao Te Ching de Lao-Tsé e o os Analéctos de Confúcio (todos em parte) serão citados nesse trabalho. A fascinante civilização chinesa é um dos exemplos de como as afirmações e crenças eurocêntricas estavam e estão erradas! A Europa sem dúvida soube aproveitar as invenções e conhecimentos dos outros povos e se lançar na expansão de conquista e influência mundial (a partir do século XV), mas a construção de vários elementos culturais, tecnologias e descobertas ocorreram na China, no Egito, na Índia, no Oriente Médio, etc.
         Quanto a antiguidade, de acordo com ALLETON (2010, p. 69):
Os primeiros conjuntos de espécimes bem conservados de escrita chinesa são relativamente tardios: são inscrições em ossos e carapaças de tartarugas datadas da metade do século VIII a.C., época em que o sistema havia atingido, no essencial, seu pleno desenvolvimento. Os vestígios do neolítico que nos poderiam esclarecer sobre esses começos ainda são objeto de controvérsias. Até hoje, não dispomos senão de sinais esparsos: na ausência de séries legíveis, não se poderia falar de escrita.

         Outros pontos importantes, referentes aos textos chineses, são as variedades no que consiste seu conteúdo e propósito: oráculos, táticas de guerra, pensamentos reflexões, códigos morais, etc. Primeiramente, o I Ching, um oráculo, um conjunto de símbolos que não podemos chamar de escrita propriamente dita. Porém, em função de sua antiguidade e utilidade, mesmo no século XXI, será apresentado.
O Iching, ou Livro das Mutações, [acabou...]


Capitulo 7

O Livro mais vendido e lido [dado de graça - distribuído] da História

         A Bíblia! É muito difícil senão impossível tratar da relevância e das influências do livro sagrado dos Judeus e Cristãos das mais variadas correntes, nas Artes, nas visões de mundo, culturas, vestimentas, organizações das sociedades, guerras, etc. Quando falamos em número de cópias podemos citar mais de um bilhão ao longo dos séculos, sim, um bilhão de cópias vendidas e doadas (ou chega-se a dois bilhões não há como precisar)!
         A variedade de textos na Bíblia é muito grande: há romance, crimes, poemas, cânticos e louvores, profecias diversas, pensamentos e reflexões filosóficas, explicação ou narrativa da criação do cosmo, do mundo, do homem e da natureza. Temos também muitos povos citados, culturas, cidades, personalidades, etc. Ao iniciar na criação dos céus e da Terra, do homem e da mulher, o acontecimento do dilúvio com Noé e a chamada de Abrão em Ur dos Caldeus, inicia-se a saga ou epopeia do povo Hebreu descendente de Abraão (Deus mudou seu nome de “pai exaltado” para “pai de uma multidão”), depois a escravidão no Egito e o Êxodo para a Terra prometida.

Toda a narrativa de promessa e aliança como o povo e com os patriarcas, as infindáveis guerras, os milagres abundam nos textos da Tora ou Pentateuco, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia atribuídos a Moisés pela Tradição tanto Judaica como Cristã, mas, não tendo nenhuma prova histórica para tal. Contrariamente, temos todos os textos em terceira pessoa: “e disse Moisés”; e falou [cansei, parei, morreu...