segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O DEVANEAR DO CÉPTICO de Bernardo Guimarães

O DEVANEAR DO CÉPTICO 





Tout corps traine son ombre et tout esprit 
son doute.
 Victor Hugo 




Ai da avezinha, que a tormenta um dia 
Desgarrara da sombra de seus bosques, 
Arrojando-a em desertos desabridos 
De brônzeo céu, de férvidas areias; 
Adeja, voa, paira.... nem um ramo,
Nem uma sombra encontra onde repouse, 
E voa, e voa ainda, até que o alento 
De todo lhe falece; — colhe as asas, 
Cai na areia de fogo, arqueja, e morre... 
Tal é, minh’alma, o fado teu na terra; 
O tufão da descrença desvairou-te 
Por desertos sem fim, onde em vão buscas 
Um abrigo onde pouses, uma fonte 
Onde apagues a sede que te abrasa! 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Ó mortal, por que assim teus olhos cravas 
Na abóbada do céu? — Queres ver nela 
Decifrado o mistério inescrutável 
Do teu ser, e dos seres que te cercam? 
Em vão teu pensamento audaz procura 
Arrancar-se das trevas que o circundam, 
E no ardido vôo abalançar-se 
Às regiões da luz e da verdade; 
Baldado afã! — no espaço ei-lo perdido, 
Como astro desgarrado de sua órbita, 
Errando às tontas na amplidão do vácuo! 
Jamais pretendas estender teus vôos 
Além do escasso e pálido horizonte 
Que mão fatal em torno te há traçado... 
Com barreira de ferro o espaço e o tempo 
Em acanhado círculo fecharam 
Tua pobre razão: — em vão forcejas 
Por transpor essa meta inexorável; 
Os teus domínios entre a terra e os astros, 
Entre o túmulo e o berço estão prescritos: 
Além, que enxergas tu? — o vácuo e o nada!... 
Oh! feliz quadra aquela, em que eu dormia 
Embalado em meu sono descuidoso 
No tranquilo regaço da ignorância; 
Em que minh’alma, como fonte límpida 
Dos ventos resguardada em quieto abrigo, 
Da fé os raios puros refletia! 
Mas num dia fatal encosto à boca 
A taça da ciência; — senti sede 
Inextinguível a crestar-me os lábios; 
Traguei-a toda inteira, — mas encontro 
Por fim travor de fel; — era veneno, 
Que no fundo continha, — era a incerteza! 
Oh! desde então o espírito da dúvida, 
Como abutre sinistro, de contínuo 
Me paira sobre o espírito, e lhe entorna 
Das turvas asas a funérea sombra! 
De eterna maldição era bem digno 
Quem primeiro tocou com mão sacrílega 
Da ciência na árvore vedada, 
E nos legou seus venenosos frutos... 
Se o verbo criador pairando um dia 
Sobre a face do abismo, a um só aceno 
Evocava do nada a natureza, 
E do seio do caos surgir fazia 
A harmonia, a beleza, a luz, a ordem, 
Por que deixou o espírito do homem 
Sepulto ainda em tão profundas trevas, 
A debater-se neste caos sombrio, 
Onde embriões informes tumultuam, 
Inda aguardando a voz que à luz os chame? 
Quando, espancando as sombras sonolentas, 
Surge a aurora no coche radiante, 
Inundando de luz o firmamento, 
Entre o rumor dos vivos que despertam, 
Levanto a minha voz, e ao sol, que surge, 
Pergunto: — Onde está Deus? — ante meus olhos 
A noite os véus diáfanos desdobra, 
Vertendo sobre a terra almo silêncio, 
Propício ao cismador; — então minha alma 
Desprende o vôo nos etéreos páramos, 
Além dos sóis, dos mundos, dos cometas, 
Varando afouta a profundez do espaço, 
Anelando entrever na imensidade 
A eterna fonte, donde a luz emana... 
Ó pálidos fanais, trêmulos círios, 
Que na esfera guiais da noite o carro, 
Planetas, que em cadência harmoniosa 
No éter cristalino ides boiando, 
Dizei-me — onde está Deus? — sabeis se existe 
Um ente, cuja mão eterna e sábia 
Vos esparziu pela extensão do vácuo, 
Ou do seio do caos desbrochastes
Por insondável lei do cego acaso? 
Conheceis esse rei, que rege e guia 
No espaço infindo vosso errante curso? 
Eia, dizei-me, em que regiões ignotas 
Se eleva o trono seu inacessível? 
Mas em vão interrogo os céus e os astros, 
Em vão do espaço a imensidão percorro 
Do pensamento as asas fatigando! 
Em vão; — todo o universo imóvel, mudo, 
Sorrir parece de meu vão desejo! 
Duvida — eis a palavra que eu encontro 
Escrita em toda a parte; — ela na terra, 
E no livro dos céus vejo gravada, 
É ela que a harmonia das esferas 
Entoa sem cessar a meus ouvidos! 
Vinde, ó sábios, alâmpadas brilhantes, 
Que ardestes sobre as aras da ciência, 
Agora desdobrai ante meus olhos 
Essas páginas, onde meditando 
Em profundo cismar cair deixastes 
De vosso gênio as vividas centelhas: 
Dai-me o fio subtil, que me conduza 
Pelo vosso intrincado labirinto: 
Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos, 
Guiai meus passos, que embrenhar-me quero 
Do raciocínio nas regiões sombrias, 
E surpreender no seio de atras nuvens 
O escondido segredo... 
 Oh! louco intento!... 
Em mil vigílias palejou-me a fronte, 
E amorteceu-se o lume de meus olhos 
A sondar esse abismo tenebroso, 
Vasto e profundo, em que as mil hipóteses, 
Os erros mil, os engenhosos sonhos, 
Os confusos sistemas se debatem, 
Se confundem, se roçam, se abalroam, 
Em um caos sem fim turbilhonando:
Atento a lhe escrutar o seio lôbrego 
Em vão cansei-me; nesse afã penoso 
Uma negra vertigem pouco e pouco 
Me enubla a mente, e a deixa desvairada 
No escuro abismo flutuando incerta! 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Filosofia, dom mesquinho e frágil, 
Farol enganador de escasso lume, 
Tu só geras um pálido crepúsculo, 
Onde giram fantasmas nebulosos, 
Dúbias visões, que o espírito desvairam 
Num caos de intermináveis conjeturas. 
Despedaça essas páginas inúteis, 
Triste apanágio da fraqueza humana, Em vez de luz, amontoando sombras 
No santuário augusto da verdade. 
Uma palavra só talvez bastara 
P’ra saciar de luz meu pensamento; 
Essa ninguém a sabe sobre a terra!...
Só tu, meu Deus, só tu dissipar podes 
A, que os olhos me cerca, escura treva! 
Ó tu, que és pai de amor e de piedade, 
Que não negas o orvalho à flor do campo, 
Nem o tênue sustento ao vil inseto, 
Que de infinda bondade almos tesouros 
Com profusão derramas pela terra, 
Ó meu Deus, por que negas à minha alma 
A luz que é seu alento, e seu conforto? 
Por que exilaste a tua criatura 
Longe do sólio teu, cá neste vale 
De eterna escuridão? — Acaso o homem, 
Que é pura emanação da essência tua, 
E que se diz criado à tua imagem, 
De adorar-te em ti mesmo não é digno, 
De contemplar, gozar tua presença, 
De tua glória no esplendor perene? 
Oh! meu Deus, por que cinges o teu trono 
Da impenetrável sombra do mistério? 
Quando da esfera os eixos abalando 
Passa no céu entre abrasadas nuvens 
Da tempestade o carro fragoroso, 
Senhor, é tua cólera tremenda 
Que brada no trovão, e chove em raios? 
E o íris, essa faixa cambiante, 
Que cinge o manto azul do firmamento, 
Como um laço que prende aos céus a terra, 
É de tua clemência anúncio meigo? 
É tua imensa glória que resplende 
No disco flamejante, que derrama 
Luz e calor por toda a natureza? 
Dize, ó Senhor, por que a mão ocultas, 
Que a flux esparge tantas maravilhas? 
Dize, ó Senhor, que para mim são mudas 
As páginas do livro do universo!... 
Mas, ai! que o invoco em vão! ele se esconde 
Nos abismos de sua eternidade. 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Um eco só da profundez do vácuo 
Pavoroso retumba, e diz — duvida!...i
Virá a morte com as mãos geladas 
Quebrar um dia esse terrível selo, 
Que a meus olhos esconde tanto arcano? 
Ó campa! — atra barreira inexorável 
Entre a vida e a morte levantada! 
Ó campa, que mistérios insondáveis 
Em teu escuro seio muda encerras? 
És tu acaso o pórtico do Elísio, 
Que nos franqueias as regiões sublimes 
Onde a luz da verdade eterna brilha? 
Ou és do nada a fauce tenebrosa, 
Onde a morte p’ra sempre nos arroja 
Em um sono sem fim adormecidos! 
Oh! quem pudera levantar afouto 
Um canto ao menos desse véu tremendo 
Que encobre a eternidade... 
 Mas debalde 
Interrogo o sepulcro, — e debruçado 
Sobre a voragem tétrica e profunda, 
Onde as extintas gerações baqueiam, 
Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos 
Das margens do infinito me responde! 
Mas o silêncio que nas campas reina, 
É como o nada, — fúnebre e profundo. . . 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Se ao menos eu soubesse que co’a vida 
Terminariam tantas incertezas, 
Embora os olhos meus além da campa, 
Em vez de abrir-se para a luz perene, 
Fossem na eterna escuridão do nada 
Para sempre apagar-se... — mas quem sabe? 
Quem sabe se depois desta existência 
Renascerei — p’ra duvidar ainda?!... 

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000065.pdf

domingo, 31 de agosto de 2014

O REINO DO INSTINTO!


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/51/Swallow_flying_drinking.jpg




O REINO DO INSTINTO!


Natureza:
Harmonia, sintonia e beleza...
Delicadeza, cores, flores, sentimentos...
Perfeição, divina mão, mãe, tudo bom, tudo que nos dá é bom...

Natureza:
Animaizinhos vivendo em famílias!
Pai, mãe e filhinhos!
Seres fofinhos e queridinhos!

PUTA!
MENTIRA ABSOLUTAMENTE DECADENTE!
PUTA!
NATUREZA: REINO DO INSTINTO! PSICOPATA E PUTA!

Natureza:
Um comendo o outro!
O outro comendo o um! Uns comendo outros, e outros, comendo nenhum! Fome!
Formas e mais formas de matar... Fome: come, mata e come!

Natureza: Reino do Instinto!
Sobrevivência! Luta constante!
Sexo, sexo e mais sexo!
Cio, reprodução e mais reprodução! Ejaculações em jato!

Nos oceanos, nas árvores, nas pedras: SEXO!
A força, com sedução, com inibição, com dominação: SEXO!
Irresistível: SEXO!
Reino do instinto: SEXO!

SEXO entre familiares!
SEXO entre o mesmo sexo!
SEXO para ser o líder!
SEXO até a morte perdendo a cabeça para a fêmea! Cabeça devorada pela fêmea!

Dentes pontudos!
Unhas, garras afiadas!
Salivas pulsantes de bactérias!
Fedores, cheiros insuportáveis!

Reino do instinto:
Carniças são banquetes!
Carnes dilaceradas!
Ossos quebrados!
Gritos, cortejos, chamadas, cantos, assobios, danças: SEXO!
Comida e mais comida!
SEXO E MAIS SEXO!
Comida com SEXO! SEXO com comida!

Demarcações de territórios:
Merdas para todos os lados, caminhos cagados, urinados...
Presas enterradas!
Rosnados: “não se aproxime ou morrerá!”

Natureza! Natureza!
Puta beleza!
Deslumbrante incerteza!

Vida pulsante guiada pelo instinto errante!

BLASFÊMIA CRÍTICA 4!

BLASFÊMIA CRÍTICA 4!



Passado...
Eterno mistério...
Voraz testemunha...
Santidade recheada de traições e adultérios!

Venha comigo!
Realizar uma caminhada...
Já esta com medo? Medroso! Medrosa!
Só a palavra blasfêmia, lhe parece horrorosa?

Vamos nesta caminhada somar:
História mais imaginação!
Livre pensar e coragem!
Neutralidade máxima, morte de dogmas e de opinião!

Imagine:
Povo escolhido...
Bem: todo povo escolhido escreve ou prega que é o povo escolhido!
Povo escolhido, milênios atrás!

Povo santo! Herança! Separado! Iluminado! Que recebeu a Palavra, a Revelação...
A Verdade Absoluta!
Mas, eis uma questão!
Sempre, existir! Existirão!... Questões!

Mesmo o dogma lutando contra as questões!
Contra as manifestações!
Contra o clamor por explicações!
A dúvida, para o dogma, sempre é maligna!

Uma palavra!
Uma ordem!
Uma ordenança!
Eis a palavra:

17 Agora matem todos os meninos. E matem também todas as mulheres que se deitaram com homem,
18 mas poupem todas as meninas virgens.

Bíblia. Velho Testamento. Livro de Números. Capítulo 31. Versículos 17 - 18.

E assim foi. Foi?

BLASFÊMIA CRÍTICA:

Mas como assim foi?
Assim não poderia ter sido!
Ordenamento de assassinatos de inocentes? Crianças? Bebês?
Matar os meninos e deixar as meninas VIRGENS vivas?
E deixar as crianças do sexo feminino vivo para...
Matar as mulheres, algumas grávidas logicamente?

BLASFÊMIA CRÍTICA:

Todo argumento de amor e fé desmorona diante destas palavras!
Todo argumento teológico, discurso religioso para proteger ou afirmar que esta ação é correta realizada por um Ser Todo Poderoso  e Bom (ou em nome deste Ser) é falaciosa! Só o fanatismo, a mentira vã e desumana, o terrorismo, sustenta tal prática podre.

Toda religião, culto, fé, crença, mitologia... Que promove o fim e a destruição da vida humana é um castelo de mentiras de invenções de mentes violentas e sedentas por poder!